sábado, 9 de julho de 2016

UMA OUTRA PERSPECTIVA

UMA OUTRA PERSPECTIVA

Provavelmente existem tantas definições de adicção quanto maneiras de pensar,
fundamentadas em pesquisas e experiências pessoais. Não admira que existam muitas áreas de
honesta discordância nas definições que ouvimos. Algumas parecem adequar‐se melhor aos
fatos conhecidos e observados para certos grupos, do que para outros. Se pudermos aceitar isso
como fato, então talvez se deva examinar uma outra perspectiva, na esperança de que se
descubra um caminho mais básico para todas as adicções, e mais eficaz no estabelecimento da
comunicação entre nós todos. Se pudermos chegar a um maior acordo sobre o que não é adicção,
então o que ela é talvez nos surja com maior clareza.

Talvez possamos concordar em alguns pontos principais.

1. Adicção não é liberdade
A própria natureza da nossa doença e de seus sintomas observados acentuam esse fato. Nós,
adictos, valorizamos muito a liberdade pessoal, talvez porque a queiramos tanto e a
experimentemos tão pouco na progressão da nossa doença. Mesmo em períodos de abstinência,
a liberdade é restrita. Nunca temos certeza se determinada atitude é baseada no desejo
consciente de recuperação contínua ou numa vontade inconsciente de voltar a usar. Tentamos
manipular pessoas e situações e controlar todas as nossas ações e, assim, nós destruímos a
espontaneidade, uma característica integrante da liberdade. Não conseguimos compreender que
a necessidade de controlar tem origem no medo de perder o controle. Esse medo, baseado em
parte nos fracassos do passado e frustações nas soluções das dificuldades da vida, nos impede de
fazer escolhas significativas; escolhas estas que, se levadas avante, eliminariam o próprio medo
que nos bloqueia.

2. Adicção não é crescimento pessoal
As rotinas monótonas, imitativas, ritualísticas, compulsivas e obsessivas da adicção ativa nos
tornam incapazes de pensar e agir de forma adequada e sensata. Crescimento pessoal é esforço
criativo e comportamento consciente; pressupõe escolha, mudança e capacidade para encarar a
vida como ela é.

3. Adicção não é boa vontade
A adicção nos isola de pessoas, lugares e coisas que estejam fora do nosso próprio mundo —
obter, usar e descobrir maneiras e meios de continuar o processo. Hostis, ressentidos,
egocêntricos, egoístas, nós nos afastamos de todos os interesses externos, à medida que a nossa
doença progride. Vivemos com medo e suspeita das próprias pessoas de quem temos que
depender para nossas necessidades. Isto atinge todas as áreas de nossas vidas e qualquer coisa
que não seja absolutamente familiar torna‐se estranha e perigosa. Nosso mundo encolhe até o
isolamento. Esta pode muito bem ser a verdadeira natureza do nosso distúrbio.
Tudo que acima foi dito poderia resumir‐se em que...

4. Adicção não é uma maneira de viver
O mundo doente, interesseiro, egocentrado e fechado do adicto dificilmente se qualifica como
uma maneira de viver. Na melhor das hipóteses, talvez seja uma maneira de sobreviver
temporária. Mesmo nessa existência limitada, é um caminho de desespero, destruição e morte.
Qualquer estilo de vida que busque uma realização espiritual parece exigir exatamente aquilo
que falta na adicção: liberdade, boa vontade, ação criativa e crescimento pessoal.
Com liberdade, a vida é um processo que avança e se modifica com sentido. Olha‐se para
frente com uma expectativa razoável de melhor e mais rica realização dos nossos desejos e um
maior preenchimento do nosso eu individual. Essas são, naturalmente, algumas das
manifestações do progresso espiritual que resulta da prática diária dos Doze Passos de NA.
Boa vontade é uma ação que inclui outras pessoas além de nós mesmos — uma maneira de
considerar os outros tão importantes nas suas vidas quanto nós na nossa. É difícil dizer se a boa
vontade é a chave para a empatia, ou vice‐versa. Se aceitarmos a empatia como a capacidade de
nos vermos nos outros de forma compreensiva, sem perdermos nossa identidade, então
reconhecemos uma igualdade. Se tivermos nos aceitado, como podemos rejeitar os outros? A
afeição vem de enxergarmos as semelhanças. A intolerância resulta das diferenças que não
queremos aceitar.

No crescimento pessoal, usamos tanto a liberdade quanto a boa vontade, em cooperação com
os outros. Compreendemos que não podemos viver sozinhos; que o crescimento pessoal é
também interpessoal. A fim de encontrar um maior equilíbrio, examinamos valores pessoais,
sociais e espirituais, bem como valores materiais. A maturidade parece exigir esse tipo de
avaliação.

Na adicção ativa, insanidade, instituições e morte são os únicos finais. Na recuperação, através
da ajuda de um Poder Superior e dos passos de NA, tudo é possível.
A ação criativa não é um procedimento misterioso, embora seja um trabalho interno na
reconstrução ou reintegração das nossas personalidades fragmentadas e em desordem.
Geralmente, significa apenas escutar aqueles pressentimentos e sentimentos intuitivos que
pensamos poder ajudar os outros ou nós mesmos, e agir sobre eles espontaneamente. É aqui que
muitos princípios básicos de ação se tornam evidentes. Somos então capazes de tomar decisões
fundamentadas em princípios que têm um valor real para nós.

O propósito dos Doze Passos de Narcóticos Anônimos torna‐se claro, à medida que
descobrimos que a dependência de um Poder Superior, tal como cada um de nós O compreende,
nos traz auto‐respeito e auto‐confiança. Sabemos que não somos nem superiores nem inferiores a
ninguém; nosso verdadeiro valor está em sermos nós mesmos. A liberdade com
responsabilidade, conosco e com nossas ações, torna‐se importantíssima em nossas vidas.
Mantemos e expandimos essa liberdade pela prática diária — esta é a ação criativa que não tem
fim. Boa vontade é, evidentemente, o início de todo crescimento espiritual. Conduz ao afeto e ao
amor em todas as nossas ações. Essas três metas — liberdade, ação criativa e boa vontade — quando
aplicadas ao serviço na Irmandade, sem busca de recompensas pessoais, trazem consigo
mudanças, cuja extensão não podemos prever ou controlar. Portanto, o serviço também é um
Poder maior do que nós, e tem um significado especial para todos.

Minha gratidão fala...
Quando eu me importo
E quando compartilho
Com os outros
O caminho de NA

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